Pêssegos, pêras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música dos meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.
Eugénio de Andrade, Aquela Nuvem e Outras
Enumeração – Recurso expressivo que consiste na sucessão de elementos da mesma classe gramatical de que resulta a intensificação de uma ideia.
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Cansado de servir de modelo
a uma legião de pintores,
transformou as anteras num pincel,
e na falta de guaches e de papel,
pincela com pólen amarelo
a cabeça dos beija-flores!
in Herbário
Poema de Jorge Sousa Braga
Ilustração de Cristina Valadas
Personificação – Consiste na atribuição de características humanas (fala, acções, sentimentos,…) a animais, coisas ou ideias.
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Casei um cigarro
com uma cigarra,
fizeram os dois
tremenda algazarra
porque o cigarro
não sabe cantar
e a cigarra
detesta fumar.
Não digam que errei
(mania antipática!)
só cumpri a lei
que manda a gramática.
Luísa Ducla Soares, Poemas da Mentira e da Verdade
Ilustração: Ana Cristina Inácio
Formação do feminino
a)- Regra geral
O feminino dos nomes obtém-se substituindo o -o final por um -a.
Exemplos: gato – gata; pombo [...]
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Rio no rio
canto a um canto
de madrugada.
Não mato o mato
semeio a semente
na terra molhada.
De que me livro
se ler um livro?
Da solidão.
São como um pêro
todas as coisas
são como são.
Amo quem amo.
Ao amo obedeço
sem sentimento.
Quem apaga a vela
e leva à vela o barco?
O vento.
Um sonho mau
um sonho doce
para trincar.
No meu quarto
um quarto de hora
chega para brincar.
A linha [...]
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Peguei na Serra da Estrela
para serrar uma cadeira
e apanhei um nevão
numa serra de madeira.
Com as linhas dos comboios
bordei um lindo bordado,
quando o comboio passou
o pano ficou rasgado.
Nas ondas do teu cabelo
já pesquei duas pescadas.
Olha para as ondas do mar,
como estão despenteadas.
Guardo o dinheiro no banco,
guardo o banco na cozinha.
Tenho cem contos de fadas,
que grande fortuna [...]
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Do Pedro e do Paulo
sou um grande amigo,
distinguir os dois
é que não consigo.
Têm os olhos iguais
sorriso feliz,
ambos sem um dente
sardas no nariz.
Digo: «Olá, Pedro!»
Não é ele. É o mano.
«Ó Paulo, anda cá!»
E outra vez me engano
porque era o irmão.
Isto de ser gémeos
é uma confusão.
Vinicius de Moraes,
Palavras de Cristal
Ilustração: Jorge Miguel in Português em Linha, Plátano [...]
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O pião foi lançado
Pelo menino:
Desenrolou o cordel
Rápido
Rapidíssimo
Num voo até ao chão
E rodou
Rodou
Rodou tanto
Que adormeceu
dormiu a rodar
Ze… Ze… Ze…
Ze… Ze… Ze…
Rodou
Rodou
Até que o menino
O apanhou
À unha
À mão
E o pião
Adormecido continuou
A rodar
A rodar
A sonhar
Até que devagarinho
Muito devagarinho
Acordou
E tombou
Só o menino soube
O sonho
Que o pião
Então
Lhe contou…
Matilde Rosa Araújo, Segredos e Brinquedos
Repetição – recurso expressivo que consiste na repetição [...]
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Posted in Miguel Torga, Poemas on Setembro 27, 2008 | Leave a Comment »
Sisífo
Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga, Diário XIII
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